- Primeiro meus pais me colocaram em uma escola pública (meu pai alegava que não trocaria seu vinho e frios no fim da noite para bancar escola para os filhos que não eram burros – de fato, não somos).
- Não fui a melhor aluna da classe, mas nunca repeti um ano escolar (fiquei em recuperação em Química, mas gostava da matéria que o professor com índole militar me chamava somente pelo último sobrenome).
- Quando terminei o colegial, convenci meus pais que não teria mais férias decentes até o final da vida e eles me deixaram vagabundear por 6 meses (ninguém pode chamar isso de não proveitoso, foi quando aprendi que ler poderia ser algo bacana, escrever também, afinal, eu era a única desocupada que não tinha nada pra fazer).
- Logo após estas deliciosas férias, meu pai disse que pagaria 6 meses de cursinho (dos baratos), e caso eu quisesse algo melhor, eu que me virasse para conseguir descontos, depois disso eu que me virasse em pagar os próximos caso quisesse fazê-los (convenci um amigo da época – um dos únicos que tinha scanner – a alterar minhas médias finais do boletim, tive bolsa de 50% num dos melhores cursinhos da cidade).
- Mais uma das regras de papai era que, eu tinha que passar na universidade pública da cidade, do contrário, eu que arrumasse trabalho para bancar uma particular ou morar fora, caso a universidade fosse pública (passei na pública daqui mesmo, fazendo o curso que me levou ao título de ovelha negra da família)
- No último ano de faculdade, meus pais se separaram, fiquei na merda junto a minha mãe, me virei para baratear os custos do meu trabalho final e tirei nota máxima no livro que escrevi com um CD-room para apresentação das imagens (o projeto foi tão inovador para época que um dos professores da banca queria indicar meu livro pra edição, projeto frustrado pois
não tinha autorização de publicação das imagens da traveca que tinha se mudado pra Suíça). - Formada, no ano seguinte, consegui um emprego de professora temporária e fui aprovada no meu primeiro concurso (que só viria a ser chamada 3 anos depois).
- No mesmo ano fiz minha pós-graduação na mesma universidade que me formei (concluí no início do ano seguinte, pois tive apendicite em plena época de escrita da monografia – não tive a mesma nota da graduação – mas a banca me odiava também).
- Com as crises pós divórcio (grana, choro, depressão e brigas), me submeti os 2 anos seguintes na labuta das aulas substitutivas (na mesma época minha mãe ficou desempregada e eu ajudei a sustentar a casa com esta grana).
- Ano passado fui efetivada no primeiro concurso que prestei para dar aulas, no final do ano prestei mais um concurso e de novo fui aprovada, ou seja, tenho agora dois cargos de 20 horas para ensinar meus alunos algo que preste realmente (faço isso na maior parte do tempo com o maior prazer, mas confesso que tem dias que parece não valer a pena insistir com certas almas, e aí, desisto delas sem o menor remorso).
Bom, nesta altura do campeonato, você deve estar se perguntando, porque cargas d’água esta louca resolveu contar a vida?!
Fácil!! Como virão, me formei, me pós-graduei, não foi fácil, mas não arrancou pedaço (só alguns anos de vida que teria lá pra frente). Aí, acordo no sábado (meu suposto dia de descanso), com o vizinho do apartamento da frente (com cara de deboche), vindo me perguntar se larguei o carro aberto durante a noite.
(ÃH?!)
Não bebo, minha mãe estava viajando (logo fico mais neurótica em fazer as coisas da forma certa – jeito de conseguir a “não bronca”), OBVIO que não larguei porta nenhuma aberta!
Pela QUINTA (5) vez no período de 1 ano, meu carro foi mais uma vez arrombado (terceira dentro da garagem do meu prédio). Já devo estar tão entorpecida com tal notícia que isso nem me revoltou tanto (desta vez).
No entanto, chega o momento em que me sinto realmente roubada, onde acredito piamente que algo está ERRADO!!
“A HORA DE LEVAR O CARRO PARA O CONSERTO!!!”
Blá blá blá (liga pesquisando o preço), blá blá blá (espera a avaliação da avaria), eis que a moça que me atendia, na hora da discussão financeira, diz que a hora do mecânico da empresa custava R$ 82,00!!! (oitentaedoisreaisahoradetrabalhodomecânico)
Pronto aí caí para trás!! Calma lá, PENSEM comigo, eu me formo numa universidade
pública (o que não é tão fácil assim), me pós-graduo, passo em DOIS (2) concursos públicos (o que também não é a maior facilidade do mundo), agüento 40 filhos dos outros em média fazendo desaforos dos mais variados tipos e ainda tento ensiná-los algo correspondente a minha disciplina, fora ensinar educação, respeito, justiça, gentileza e etc pelo valor de exatos R$7,53 (setereaisecinquentaetrêscentavosahoraaula).
Onde é que eu errei??? A regra agora é ser mecânica? Esta é a nova profissão do futuro?? Alguém poderia ter me avisado que não precisava ter estudado tanto, gastado com cursos e livros (e olha que compro bastante livro e os leio), bastava ter feito algum curso do Instituto Universal ou freqüentado algum desmanche de carros roubados que eu teria o know how necessário para ser bem sucedida financeiramente? Ainda mais tendo ciência de que o salário do último nível do professorado com a última contagem de tempo de serviço chega a bagatela de R$ 26,23 (vinteeseisreaisevinteeseiscentavoshoraaula), ou seja, quando eu me aposentar, eu estaria recebendo mais ou menos 1/3 do que um mecânico recebe para desmontar a bosta da minha porta do carro, trocar a merda do cilindro da chave que algum dos meus ex-candidatos a alunos estouraram para roubar meia dúzia de chaves de fenda e um cabo para energia de bateria!
Perguntem o que ensinarei para os meus alunos amanhã?
ACHARAM O ERRO? AGUADO RESPOSTAS!!
Obs.: Quero deixar claro que não estou aqui desmerecendo o trabalho do mecânico, e tão pouco o tanto que estudou para chegar onde chegou e sim estou pasma com o MEU salário, porque é que ensinar (seja lá o que for) e tentar transformar a vida de um ser humano vale tão pouco??

