domingo, janeiro 21, 2007

-- Por favor... cativa-me!


-- É algo quase sempre esquecido -- disse a raposa. -- Significa "criar laços"...
-- Criar laços?
-- Exatamente -- disse a raposa. -- Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
-- Começo a compreender -- disse o pequeno príncipe. -- Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
-- É possível -- disse a raposa. -- Vê-se tanta coisa na Terra...
-- Oh! não foi na Terra -- disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
-- Num outro planeta?
-- Sim.
-- Há caçadores nesse planeta?
-- Não.
-- Que bom! E galinhas?
-- Também não.
-- Nada é perfeito -- suspirou a raposa.
Mas a raposa retomou o seu raciocínio.
-- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar por debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:
-- Por favor... cativa-me! -- disse ela.
-- Eu até gostaria -- disse o principezinho --, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
-- A gente só conhece bem as coisas que cativou -- disse a raposa. -- Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos. os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
-- Que é preciso fazer? –- perguntou o pequeno príncipe.
-- É preciso ser paciente -- respondeu a raposa. –- Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...
No dia seguinte o príncipe voltou.
-- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora -- disse a raposa. -- Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... é preciso que haja um ritual.


[trecho do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry]

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